domingo, 6 de fevereiro de 2011

Rêve





Julgo que foi a primeira vez que sonhei com ele.
Não é uma cara estranha, muito pelo contrário. É alguém que me fascina, mas na verdade sei que não tenho coragem de o abordar. Já pensei em convidá-lo para um café, para conversarmos, mas faltou-me a lata...e a coragem.

Foi um sonho que desejava nunca ter acabado. Foi revigorante, interessante, educativo.

Tudo começou com um pedido: que eu lhe fosse comprar uns livros à livraria. O ambiente era diferente daquele em que nos costumamos cruzar. Parecíamos estar em Cambridge ou Oxford, num fundo quase que suspenso pelo tempo.

Fui comprar-lhe os livros e levei-os ao seu gabinete (nunca tinha visitado o seu gabinete, aliás, desconheço que tenha um até).

Tenho um grande defeito, que me leva a perder um pouco a noção do tempo e da realidade: quando alguém me interessa, faço meu desafio pessoal conhece-la melhor e chegar ao seu âmago, à sua essência.
Sou uma conversadora. Adoro conversar. Adoro poder aprender, debater, defender as minhas ideias fervorosamente, argumentar, contar histórias.
E através disso, acabo por dar um pouco de mim e receber um pouco dos outros.

No seu gabinete, tentei criar um chit-chat com ele. É que ele sempre me interessara. Com poucas palavras agradeceu-me e disse que tinha que fazer. Agarrei-me mentalmente aos livros que tinha na sua estante. Vi Orgulho e Preconceito, como a tentar saltar à vista. "É um romântico" disse-lhe eu. Surpreendido anuiu, mas continuou concentrado no que estava a fazer. Perguntei-lhe se ele se importava que eu pegasse no livro, se o tirasse da estante. Vi a sua cabeça a responder-me que não. Abri-o e li a minha passagem favorita "In vain I have struggled. It will not do. My feelings will not be repressed. You must allow me to tell you how ardently I admire and love you.", na parte em que Mr. Darcy se confessa. Li-lhe também "He is a gentleman; I am a gentleman’s daughter; so far we are equal".
Fechei o livro com violência. Não me prestara atenção. Devolvi o livro ao seu lugar, pronta para sair. Quando ia a passar a porta, ouvi-o a perguntar qual era o meu clássico favorito. Dividida, respondi-lhe que seria ou Anna Karenina ou O Príncipe. Ficou admirado. Uma rapariga que pelo poder e pela líder em que se pode tornar, está disposta a viver em tragédia e na solidão de não poder ter quem quer, é dramático - respondeu-me.
Virei-lhe costas e saí.

Tinha razão ele. Toda a razão. Desde muito cedo me conformei que para atingir os meus sonhos, poderei ter de abdicar do meu coração. As mulheres que admirava tinham elas próprias sido traídas pelo coração, ou vivido muito pouco o amor.

Voltei no dia seguinte. Tinha revelado mais de mim do que ele de si.
Não estava. Procurei-o.
Encontrei-o na biblioteca a preparar algo. Tinha os phones nos ouvidos. Algo, alguém, me tinha dado a entender que era fã de pop-rock britânico contemporâneo. Honestamente não sei de onde tirei essa ideia. Quando o vejo na realidade imagino-o com um ar muito mais de Blues.
Sentei-me à sua frente com um Menezes Leitão nas mãos, cujas páginas entrelaçadas nos dedos indicariam a qualquer pessoa que passasse por nós que estava mais atenta à figura dele que ao livro. (Coisa que nem deve ser tida em conta, já que afinal de contas, dias antes sonhei com o Prof. Vaz Serra e o Prof. Antunes Varela a discutirem sobre a obrigatoriedade de declaração de aceitação do devedor perante uma Remissão)

Reparou finalmente em mim. Perguntou-me se o ia deixar alguma vez em paz. Sorri e disse-lhe que ainda me faltava saber qual era, afinal, o seu clássico favorito.

A República respondeu-me. Fazia sentido. Concentrei-me no estudo, enquanto o meu cérebro processava a informação do que lia, dividindo a sua concentração a processar aquilo que já sabia a respeito dele.

Aproveitei a saída dele para também eu sair. Mas ele dirigiu-se ao edifício e eu comecei a andar para a estrada. Não percebi que me estava a seguir. Já estava quase no meio da rua quando ouvi-o perguntar atrás de mim "Porquê eu?". Virei-me. "Não sei. Porque não?". Não tinha percebido que um carro se estava a aproximar a alguma velocidade. Era já tarde e no Inverno, o dia acaba cedo demais. Ele puxou-me o braço embora o condutor do carro já me tivesse visto e se tivesse desviado. "Não quero que morra por falar comigo!". Soltei um riso. "Estou convencida que vou morrer velha e cheia de desgostos!", respondi-lhe.
"Quer conversar? Venha comigo". Segui-o.
Este, acho que foi o clímax do meu sonho. A parte em que cheguei a ele. Em que deixou de ser alguém distante para se disponibilizar a ouvir-me e a deixar-me ouvi-lo sobre algo que poucos sabiam. Nesse momento tornei-me como que especial - ele abrir-me-ia a porta da sua pessoa.

Falámos durante horas no seu escritório. Sobre Tolstoi, sobre Maquiavel. Sobre os meus sonhos. Sobre a personalidade dele. Sobre o segredo que teríamos de manter em relação à nossa amizade.
O sonho acaba connosco a adormecermos no chão, à luz duma lamparina de luz ténue e amarelada.


Pensei em escrever-lhe uma carta, ou um e-mail a contar-lhe que num pequeno momento, numa construção irreal do meu subconsciente, fomos amigos.
Mas falta-me coragem e assim, ele que tanto me interessa, com quem poderia ter as mais fantásticas conversas, continuará à mesma distância. E eu continuarei sentada nas cadeiras sob os olhos dele, no meio das dezenas de pessoas que tal como eu, são apenas um décimo na vida dele.

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