O meu pai e a minha avó, sempre tiveram aquele terrível hábito de, em contexto de discussão, atirarem tudo à cara. Tudo aquilo que era criticável, embora nalguns casos estivesse completamente fora de contexto e até poderia ser justificável, era uma boa pedra para atirar.
Eu também o fiz em tempos, com o Will. Quase nos custou a amizade. Mas de algo mau, percebi que era uma atitude errada. Por vezes, não deixam de ser verdades, aquelas coisas que dizemos. Mas não deixam de ferir. E seremos nós assim tão horríveis e autistas, que temos de discutir ferindo ainda mais o outro? Será que isso nos faz ganhar uma discussão?
[Parte da razão que me levou a ficar com o Thèo, foi saber que ele me contava tudo, que sempre seria sincero e diria se me queria na sua vida ou não. Isto claro, depois de ter ficado extremamente ferida, com a sinceridade inicial dele, quando me apelidou de "lufada de ar fresco" e de "secundária" na vida dele, logo ao início da relação, o que, obviamente me deixou sempre de pé atrás e com medo. A sinceridade é boa, mas por vezes leva-nos a uma dor perfeitamente desnecessária.]
Hoje mordi a língua. Ouvi coisas que gostaria de nunca ter ouvido. Não por serem mentiras, mas porque o peso que elas exercem sobre mim, é suficientemente doloroso mesmo sem serem alvo de reprodução sonora. E como eu sou muito sensível, custam muito mais. Mas calei-me, não respondi. Contra a minha natureza de picar de volta. Porque não vale a pena, só inflingiria dor. E para dor, já bastava a minha.
Sim, custa ser um fardo desde que se veio ao mundo. De uma mãe que sabia que uma gravidez atrasaria a doença, estando tão desesperada para engravidar que sabotava contraceptivos, a um pai que só se casou com uma mulher e optou por ter filhos, porque é um menino da mamã e faz tudo o que esta quer.
E até poderia ser desejada pelos meus avós, mas no momento em que a minha avó se apercebeu que eu era uma menina "difícil" porque tinha vontade própria e não saía à educação "pau mandado", ficou tudo estragado. No fim, nem pais nem avós. (A estupidez, de facto, é um mal do qual padeço)
Já agora, dos amigos, esses contam-se pelos dedos. Já passei a fase daqueles que se aproximavam para copiar. Agora estão muito melhor. Mas ainda me sinto pouco bem-vinda. Em especial quando me falam da fantástica noite anterior, da qual só me serve o relato porque...ups! esqueceram-se de me convidar.
No fundo, o problema só pode ser de mim.
Depois existem pessoas que me querem ter por perto e não podem. E como não podem, sou acusada de ter o nariz empinado porque não compreendo a situação. Não compreendo que estou a mais, que continuo a ser um fardo, nem que seja de outra forma. Que não compreendo porque tenho um pai que "gasta dinheiro em festas em vez de ajudar a filha".
O que eu não compreendo é o porquê de merecer estas palavras. Tenho eu um pai ab initio? Não? Então porque raios haveria ele de gastar dinheiro em mim? Hein? Se é para fazer raciocínios destes, que se façam premissas com lógica. Assim, a conclusão vai sair sempre desviada.
Há coisas que são difíceis de ouvir. E por vezes, a ignorância é mesmo uma benção. Custa muito mais ouvir um "não me apetece estar contigo" do que um "não me estou a sentir bem". Mentir é feio. Mas ser-se mau também o é. Magoar também é feio. Porque é que alguém haveria de ficar magoado quando a verdade é que nós estamos mais preocupados com a habilidade de conseguir pagar o nosso café ou a encontrar forças para sair da cama, quando por vezes só nos apetece é morrer? A honestidade é fantásica, mas que tal sermos simpáticos e pouparmos os outros da nossa miséria?
E pensar hoje nestas coisas, enquanto se chora, depois do dia de ontem ter sabido tão bem.
Bem, c'est la vie. Tempestade > Bonança > Tempestade > Bonança, etecetera, tipo ciclo da água.
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segunda-feira, 4 de agosto de 2014
terça-feira, 15 de abril de 2014
Ser criança
São 10 da manhã e sinto um turbilhão em mim que não consigo descrever.
Especialmente depois do que se passou ontem.
Era meia-noite e tinha chegado ao fim um mês de pianista. Com sucesso, diga-se de passagem. Fantástico mesmo. Cheguei a casa. Levei um raspanete do meu pai: afinal de contas ele ainda tem de se habituar à ideia que eu tenho um namorado presente.
Até aqui, nada de mais. O costume, diria até.
Deitei-me e esperei pela confirmação que ele tinha chegado a casa. Adormeci. Às duas da manhã acordei em sobressalto. Nada. Teria acontecido alguma coisa? Liguei. Atendeu. Algo se passou, já te digo qualquer coisa. E esperei.
{Não sinto saudades, J. É algo que, normalmente, não me assiste. O Will que te diga, que regra geral, se não me procuram, eu também não procuro. E longe da vista, longe do coração. E não quero que contigo aconteça assim.
Tu vais estar ocupado de uma forma que eu não estarei. E claro, que tenho de conseguir viver sem ti. E consigo. Isso não quer dizer que não custe não saber quando te volto a ver. Não saber, se ainda estás comigo.
E por falar em estar com alguém, ficar sozinha assusta. Especialmente porque tenho um historial de efeito de substituição. E não é só com chocolate.
Portanto sim, estou apavorada. Cheiiiinha de medo. Que te esqueças de mim, que eu me esqueça de ti. Que me faças mais falta que eu a ti.}
E esquece o que acabei de escrever. Esquecer-te seria impossivel. Como se esquece um amor destes? A perfeição? A completude? Saber que é assim que é certo. Tu já me marcaste para uma vida inteira. E compensaste toda a falta de amor que senti durante a minha vida.
Pois claro, poderás argumentar que só se passou um mês. Que ainda não te conheço bem. Mas já passei contigo mais tempo que com qualquer outro homem, à excepção do Thèo.
És a minha casa.
{E não quer dizer que eu desista.} Estou contigo com armas e bagagens. Mas não é bem esse o problema. (Porque eu amo-te de uma forma que nem as palavras todas do mundo conseguem ilustrar.)
O problema é que eu também tenho bagagem. E medo. E neste momento tenho uma mágoa que me fere horrivelmente. "então e ela já anda a comprar casacos de mota? Daqui a um bocado compra-te o assento do pendura".
Nunca ninguém teve a coragem de falar assim sobre mim. Geralmente acham que sou boa, que faço bem, que sou o equilíbrio da outra parte. Aparentemente para o teu pai sou outra coisa qualquer. E isso fere. E tu sabes que sou sensível. Forte, mas sensível.
Se calhar foi por ter dormido na mesma cama. Faltei-lhe ao respeito, portanto ele acha que eu não presto. Se calhar é isso mesmo.
Não sei. Sei que estou triste. Muito triste. Sei que sou criança. (Não somos todos?). Sei que tenho medo. E que agora me apetece mesmo um gelado. E chorar. Porque te amo. E porque me tinha esquecido que amar também dói.
P.S.- Esta vale também para o Will - até que ponto devemos abdicar de nós e das nossas necessidades para "ajudar" a Familia? Onde riscamos a linha que separa o adequado e o demasiado?
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