
Sei bem de onde veio o sonho. O desfecho feliz, descontraído, tipo conto de fadas ao meu puro estilo.
Conhecia-o há já algum tempo. As poucas conversas tinham deixado sempre um grande hiato entre nós. O tempo ia passando, as palavras não desabrochavam e o número de telemóvel dele estava entrelaçado no meio de todos os outros. Sem destaque, sem interesse. Um dia lembrei-me de o provocar de novo. Tal como havia feito antes. Na altura mantive uma certa distância tendo em conta que estamos separados por rios e muitos quilómetros de terra. Demasiada terra.
Palavra a palavra, confissão a confissão, descobrimos lentamente que somos muito semelhantes. As conversas faziam-me sentir num prado, com um lago no fim, para o qual olhava e onde via o meu reflexo na água cristalina. Queria ser mais específica, contar o que nos confessámos, aquilo sobre o qual nos rimos, mas foi tão rápido, tão pouco mas ao mesmo tempo tanto, tanta intensidade.
O problema logístico era simples: ele lá, eu cá. A voz longínqua dele ao telefone preenchia-me um pouco mas não era suficiente. Grave com aquela pronúncia reconfortante sobre a qual eu troçava de modo a rirmo-nos um pouco. Um dia decidi que era hora de olhá-lo nos olhos. Conversar frente a frente, com o rio aos nossos pés e as pontes tão belas a servir de fundo ao fascínio que ele me criava.
Aproveitando um evento que supunha termos em comum, peguei no carro e conduzi. Horas e horas. A música como companhia, como um tambor numa marcha, a incentivar a expectativa. Senti-me livre, louca, aventurosa. Senti-me eu mesma.
Chegada ao amplo salão, com o Douro a sussurrar-me saudades, procurei-o. Percorri todas as faces naquela sala. Perguntei subtilmente por ele. Não estava lá.
Desiludida resignei-me. Estava convicta que ele estaria lá. A aguardar-me. A aguardar pelas promessas que tínhamos feito um ao outro. Ansioso, como eu, por poder debater filosofia, a vida, o mundo, a política e nós. Queria que ele me lapidasse. Que desse o brilho que ultimamente estava tão desvanecido em mim.
Antes de partir, de voltar a casa perguntei-lhe porque não o vira. Desfez-se em desculpas. Mas as desculpas servem para quem sente com a cabeça e não para quem tem coração.
Nessa noite senti arrependimento. Arrependi-me de ser ingénua. De permitir tal afeição. Voltei com um sabor amargo de derrota. Como se estivera em guerra com o destino e ele ficara a rir-se do meu falhanço em controlar a vida. Em tomar a pulso a alegria e a felicidade.
Abri a porta e senti um roçar na minha face. Assumi que fosse da chuva, dos pingos que apanhara entre o carro e a porta de ferro pesada, ainda mais pesada devido ao peso no meu coração, que me separava de casa. Mas o roçar não parou e facilmente percebi que a fonte que humedecera o meu rosto era, nem mais, nem menos, que os meus olhos.
No dia seguinte tentei ignorar que tudo aquilo se houvera passado. Fui muito mal sucedida, diga-se de passagem. Mas pelo menos tentei. Mais um dia monótono. Um colega bastante homossexual e daí atrevido e directo disse-me que tinha cara de quem acabara de levar com um par deles. Fingi um riso e desmenti-o. Estava bem. A chuva é que me irritava.
Ao chegar a casa do trabalho, senti uma enorme necessidade de escapar. Queria fugir da monotonia e ir para o único sítio onde me sinto completa. Completa por me sentir um pássaro. Por ter a cidade que tanto amo aos meus pés. A cidade que deixei para estupidamente enamorar a sua rival, como se fosse novamente uma adolescente parva com um fraquinho por corresponder. Mas mais: por conseguir imaginar-me a saltar do muro para o ar, voando pela cidade, livre, mesmo que no fim me custasse a vida.
Ao chegar sentei-me. Uma cerveja pela frente só para não ter a mesa vazia. Na verdade, nunca fora muito fã de cerveja. Só a bebia com amigos ou para distracção social.
Tinha frio. Estava um sopro que me congelava. Nas palavras dos Clã, quem sabe se não seria o próprio sopro do meu coração.
O telemóvel começou a vibrar sobre a mesa verde de metal. Era ele. Deveria atender ou não? Ignorei-o. Achei que ele parasse por aí.
Ele tentou de novo. Atendi, fazendo de conta que estava bem. Que ele não me afectara de todo. Perguntou por mim. Perguntou se estava em casa. Confessei que estava no meu estado de Graça, com Lisboa aos meus pés. Voltou a pedir desculpa, ele. Fingi aceitar. Fingi-me normal e ele acreditou.
Subitamente, por trás, ouvi os sinos da igreja a repicar. O que me estranhou, foi consegui-los ouvir no fundo da voz dele também.
Virei-me. Ali estava ele. Incrédula perguntei como. Tínhamos amigos em comum. Alguém lhe dissera que estava ali. Tremi de nervosismo. Ele assumiu que fosse de frio e abraçou-me inesperadamente.
Não estava à espera, de todo. Queria conversar com ele. Ser má, dura, difícil e fria. Mostrar-me independente do que ia na mente dele e no seu coração. Show-off, naturalmente.
Perguntei-lhe onde ficaria. Silenciou-me com um dedo sobre os lábios. Puxou-me a mão. Queria perder-se comigo, na cidade. Há duas horas que me procurava. Pedira direcções para chegar até à igreja, até mim. Agora só se queria perder de novo. Mas comigo na sua mão.
Expliquei-lhe que não me conseguia perder na minha cidade mãe. Ele sorriu. Pediu para eu tentar. Analisou o meu descontentamento e beijou-me. Simplesmente beijou-me. Os lábios dele com os meus. Juntos. E eu não o afastei, muito pelo contrário.
Quando nos separámos, ele respondeu-me muito simplesmente: se não te perdes comigo, pelo menos perde-te por mim.
Nesse momento acordei. Liguei a luz. Procurei algum sinal que tudo isto fora verdade. Que ele estava comigo. Que finalmente a distância se tornara em algo relativo. Que o que interessava agora éramos nós. Sentados num banco, ao vento, agarrados um ao outro. Nada o era, como é claro. Foi só um sonho, tolo, de conto de fadas. Mas quem me dera que os sonhos se realizassem...
Palavra a palavra, confissão a confissão, descobrimos lentamente que somos muito semelhantes. As conversas faziam-me sentir num prado, com um lago no fim, para o qual olhava e onde via o meu reflexo na água cristalina. Queria ser mais específica, contar o que nos confessámos, aquilo sobre o qual nos rimos, mas foi tão rápido, tão pouco mas ao mesmo tempo tanto, tanta intensidade.
O problema logístico era simples: ele lá, eu cá. A voz longínqua dele ao telefone preenchia-me um pouco mas não era suficiente. Grave com aquela pronúncia reconfortante sobre a qual eu troçava de modo a rirmo-nos um pouco. Um dia decidi que era hora de olhá-lo nos olhos. Conversar frente a frente, com o rio aos nossos pés e as pontes tão belas a servir de fundo ao fascínio que ele me criava.
Aproveitando um evento que supunha termos em comum, peguei no carro e conduzi. Horas e horas. A música como companhia, como um tambor numa marcha, a incentivar a expectativa. Senti-me livre, louca, aventurosa. Senti-me eu mesma.
Chegada ao amplo salão, com o Douro a sussurrar-me saudades, procurei-o. Percorri todas as faces naquela sala. Perguntei subtilmente por ele. Não estava lá.
Desiludida resignei-me. Estava convicta que ele estaria lá. A aguardar-me. A aguardar pelas promessas que tínhamos feito um ao outro. Ansioso, como eu, por poder debater filosofia, a vida, o mundo, a política e nós. Queria que ele me lapidasse. Que desse o brilho que ultimamente estava tão desvanecido em mim.
Antes de partir, de voltar a casa perguntei-lhe porque não o vira. Desfez-se em desculpas. Mas as desculpas servem para quem sente com a cabeça e não para quem tem coração.
Nessa noite senti arrependimento. Arrependi-me de ser ingénua. De permitir tal afeição. Voltei com um sabor amargo de derrota. Como se estivera em guerra com o destino e ele ficara a rir-se do meu falhanço em controlar a vida. Em tomar a pulso a alegria e a felicidade.
Abri a porta e senti um roçar na minha face. Assumi que fosse da chuva, dos pingos que apanhara entre o carro e a porta de ferro pesada, ainda mais pesada devido ao peso no meu coração, que me separava de casa. Mas o roçar não parou e facilmente percebi que a fonte que humedecera o meu rosto era, nem mais, nem menos, que os meus olhos.
No dia seguinte tentei ignorar que tudo aquilo se houvera passado. Fui muito mal sucedida, diga-se de passagem. Mas pelo menos tentei. Mais um dia monótono. Um colega bastante homossexual e daí atrevido e directo disse-me que tinha cara de quem acabara de levar com um par deles. Fingi um riso e desmenti-o. Estava bem. A chuva é que me irritava.
Ao chegar a casa do trabalho, senti uma enorme necessidade de escapar. Queria fugir da monotonia e ir para o único sítio onde me sinto completa. Completa por me sentir um pássaro. Por ter a cidade que tanto amo aos meus pés. A cidade que deixei para estupidamente enamorar a sua rival, como se fosse novamente uma adolescente parva com um fraquinho por corresponder. Mas mais: por conseguir imaginar-me a saltar do muro para o ar, voando pela cidade, livre, mesmo que no fim me custasse a vida.
Ao chegar sentei-me. Uma cerveja pela frente só para não ter a mesa vazia. Na verdade, nunca fora muito fã de cerveja. Só a bebia com amigos ou para distracção social.
Tinha frio. Estava um sopro que me congelava. Nas palavras dos Clã, quem sabe se não seria o próprio sopro do meu coração.
O telemóvel começou a vibrar sobre a mesa verde de metal. Era ele. Deveria atender ou não? Ignorei-o. Achei que ele parasse por aí.
Ele tentou de novo. Atendi, fazendo de conta que estava bem. Que ele não me afectara de todo. Perguntou por mim. Perguntou se estava em casa. Confessei que estava no meu estado de Graça, com Lisboa aos meus pés. Voltou a pedir desculpa, ele. Fingi aceitar. Fingi-me normal e ele acreditou.
Subitamente, por trás, ouvi os sinos da igreja a repicar. O que me estranhou, foi consegui-los ouvir no fundo da voz dele também.
Virei-me. Ali estava ele. Incrédula perguntei como. Tínhamos amigos em comum. Alguém lhe dissera que estava ali. Tremi de nervosismo. Ele assumiu que fosse de frio e abraçou-me inesperadamente.
Não estava à espera, de todo. Queria conversar com ele. Ser má, dura, difícil e fria. Mostrar-me independente do que ia na mente dele e no seu coração. Show-off, naturalmente.
Perguntei-lhe onde ficaria. Silenciou-me com um dedo sobre os lábios. Puxou-me a mão. Queria perder-se comigo, na cidade. Há duas horas que me procurava. Pedira direcções para chegar até à igreja, até mim. Agora só se queria perder de novo. Mas comigo na sua mão.
Expliquei-lhe que não me conseguia perder na minha cidade mãe. Ele sorriu. Pediu para eu tentar. Analisou o meu descontentamento e beijou-me. Simplesmente beijou-me. Os lábios dele com os meus. Juntos. E eu não o afastei, muito pelo contrário.
Quando nos separámos, ele respondeu-me muito simplesmente: se não te perdes comigo, pelo menos perde-te por mim.
Nesse momento acordei. Liguei a luz. Procurei algum sinal que tudo isto fora verdade. Que ele estava comigo. Que finalmente a distância se tornara em algo relativo. Que o que interessava agora éramos nós. Sentados num banco, ao vento, agarrados um ao outro. Nada o era, como é claro. Foi só um sonho, tolo, de conto de fadas. Mas quem me dera que os sonhos se realizassem...
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