Apetece-me bater as teclas e não parar.
Apetece-me ter razões para sonhar e romancear. Mas não tenho. E cada vez mais olho para mim própria ao espelho e vejo metade da mulher que posso ser. Estou mais fria, mais distante, menos sonhadora.
Estou verdadeiramente convencida que sou viciada naquele sentimento de paixão.
Há muito tempo que não conheço ninguém que me faça ganhar asas. Ou melhor, alguém que não me arranque as asas logo depois de eu as fazer crescer.
E como se não fosse suficientemente mau não ter o meu vício preferido - qual cigarro, qual stiletto, qual qualquer-coisa - estou mesmo a falar do amor. E do sexo. A minha vida não está um mar de rosas, o tal que eu idealizava.
Os desafios não param de surgir. E quando chego à satisfação de pousar a cabeça na almofada, algo acontece que me deixa sem sono.
O que me apetecia mesmo, mesmo, era vestir um casaco quente, as jeans e os ténis, sair e não voltar. Pelo menos até me encontrar, ou até me perder. Quero ter paz na minha cabeça. Quero voltar a sonhar.
Um bocadinho como naquelas músicas de Keane. Em que se adormece e se acorda noutro lugar qualquer.
Viver. Acho que é isso que me falta. Ando a viver a vida de toda a gente menos a minha. Por isso é que estou tão desnorteada sem o Thèo. Pelo menos tinha algo porque sonhar durante o dia. Quais são as minhas ambições?
Alguém me disse há pouco tempo que o deixava perdido. É interessante que sempre tive a sensação que por ser tão ingénua, mas dura, sonhadora mas rígida, (sim, sim não faz sentido nenhum) que chamava a atenção. Por nada mais que a minha vontade incessante de falar. Só que isso acaba por cansar os outros. E por mais que eu esteja perdida, e que faça alguém se perder, ninguém se perde comigo há já algum tempo.
Estou tremendamente deprimente, bem sei. Mas as teclas estão a bater e nem sei até que ponto as estou a controlar.
Na vida fazemos escolhas e o meu medo perpétuo é fazer as erradas. Desiludir os outros, mas pior que tudo desiludir-me a mim própria.
Fui criada à volta do meu próprio ego. Era a melhor. Nunca me senti bem a melhor, mas diziam que sim. E portanto, mesmo quando não me sinto a melhor onde o meu coração bate, o meu cérebro trata-me como a melhor.
Mas não sou. E dói chegar a essa conclusão.
Não sou mais que partículas atómicas.
Nem um olhar bonito, ou um toque suave, um espírito indomável.
Sou pó. Um aglomerado de pó. Que o vento e a vida sopram. Que tenta encontrar um nexo de pertença.
É que eu não fui feita para estar sozinha, não. Fui feita para coexistir, para me fundir, para conectar, para me diluir, para, enfim, me infiltrar.
E com isto quero dizer que fui feita para estar sempre com alguém. Nunca sozinha, não.
Mas o que é real - e por isso disse que precisava de sonhos - é que estou mais sozinha do que quero.
Mesmo com um vestido bonito, uns saltos que acalentam o espírito, o penteado perfeito; não faz sentido se não houver ninguém para apreciar.
Só que de qualquer maneira, já não acredito em príncipes encantados, ou acredito?
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