Há muitos anos atrás, passei por uma fase menos positiva da minha vida e andava demasiado em baixo. Numa noite em que me estava a aproximar demasiado do precipício, tive um sonho que me fez repensar um pouco a minha vida.
No meu sonho, já era uma mulher adulta, com uma carreira lançada na area diplomática, apaixonada por um colega de trabalho que flirtava comigo e dava sinais de interesse - a relembrar um bocadinho a história da Íris (Kate Winslet) e sua paixão pelo colega e patrão Jasper (Rufus Sewell) no The Holiday - até descobrir que ele namorava a secretária super modelo do Embaixador e a tinha pedido em casamento. Um bocadinho a relembrar os meus problemas na vida real, nessa noite, chego a casa e vou para o telhado do prédio para acabar com a minha miséria, pensando que ninguém sentiria a minha falta. (Muito melodramático, adequado ao meu estilo, na altura)
Com os pés já na berma do telhado, ouço uma melódica voz masculina atrás de mim. "Nenhuma razão justifica que desperdices a tua maravilhosa alma". Rodo o corpo com cuidado e vejo uma figura meia escondida na sombra que a estrutura da escadaria para o telhado faz. Ele aproxima-se, devagarinho. "Todos os dias passo por ti e és uma rapariga encantadora. Amorosa, com um sorriso contagiante e linda". Antes de processar que um esquezitoide cuja identidade desconheço, me acabou de dizer que me vê todos os dias - Como? Quando? - esboço um sorriso minimalista.
Quem és? - pergunto, de voz trémula.
"Sou o rapaz que trabalha no café Salimar, na esquina oposta ao edifício onde trabalhas. A minha irmã mora dois andares acima de ti. Vim fumar um cigarro cá acima. Chamo-me Alex."
A verdade é que nunca o tinha visto. Geralmente bebíamos café na embaixada, para poupar os trocos, ou em caso de fortuna amealhada e gula contornávamos o quarteirão e íamos ao Starbucks.
"Vá, eu ajudo-te a descer." E quando ele se aproximou de mão estendida, a lua iluminou-lhe o rosto e o corpo e eu apercebi-me que tinha à minha frente um autêntico Deus Grego.
Depois desta cena, o sonho parece que salta para outra na qual o meu colega de trabalho, no jantar de Natal se atira a mim. Tinha descoberto que a Super-modelo fantástica, afinal, andava a ver se subia da secretária, para a casa do embaixador.
Alex, que entretanto se tornara no meu melhor amigo - apesar de eu estar apaixonadíssima por ele - faz uma cena de ciúmes, o que me deixa intrigada. Sigo-o até à rua. Pergunto-lhe que porra se passou dentro da festa. Diz-me que tem algo para me contar e puxa-me pela mão até casa.
"Estou a fazer algo que não devo. Não posso. Mas não aguento mais!"
Confusa, pergunto-lhe o que se passa, puxando a cara dele para fora das mãos, onde a tinha enterrado.
"Estou apaixonado por ti. Não. Amo-te. Loucamente. Só te quero ter. Seres só minha. Quero sentir o teu corpo no meu, o calor da tua pele."
O meu coração parece que pára. Fico corada e tento não me desmanchar. Mas... Pergunto.
"Mas sou um anjo. Fui enviado para tomar conta de ti. Sem intervir na tua vida. Mas naquela noite, não consegui evitar. Tinha de te salvar. Tinha de tentar tirar-te do poço sem fundo, onde estupidamente, te colocas quando pensas demais, quando vives demais e sobretudo, quando amas demais."
A esta altura não sei bem como reagir. Está bêbado. Só pode. Levanto-me para ir buscar um cobertor e deixá-lo dormir no sofá. Ao fazê-lo ele agarra-me a mão. "Não estou bêbado, não preciso de um cobertor e não quero dormir no sofá".
Ele levanta-se também e beija-me. Sinto aquela sensação maravilhosa do estômago a levitar. E nessa noite fazemos amor. Muitas vezes. Mesmo amor. Suave. Doce. Gentil.
Na manhã seguinte acordo. Procuro-o nos lençóis mas dele só sinto o cheiro. Olho para a minha mesa de cabeceira e vejo uma nota.
"Querida E.,
Preciso de emendar o meu erro e pedir perdão e uma segunda hipótese. Quero poder fazer amor contigo todos os dias, mas preciso da benção de Deus para o fazer. Amo-te." Sorrio. Eu amo-o.
Nisto toca o telemóvel. "Essi, não sabes o que se passou! O Al-al-Alex foi atropelado à porta do Salimar. Oh Essi. Ele está muito mal".
Nisto acordo. Tento enquadrar-me. Não sei onde estou. Ah sim, em casa dos meus avós. Mas o sonho pareceu tão real. E ainda hoje parece que aconteceu. Impossivel, claro. Mas no coração parece que sim.
Bem sei que foi só um sonho. Mas pareceu tão real. Por isso, de vez em quando penso se aquele não seria o meu anjo da guarda. Dizendo que ele anda por aí. E gosta muito de mim.
Talvez não tenha um anjo, mas ajuda pensar que sim, quando as realidades da nossa vida são receitas perfeitas para um coração de pedra.
Boa noite Alex. Toma conta de mim.
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