O silêncio do frio é ensurdecedor. A noite parece dizer-nos que está tudo em paz, que a calma se instalou. Ainda que eu não esteja em paz, ou calma.
Mas é uma quesão de tempo. O tempo aqui, assegurar-se-á que a minha alma se invada de paz, de sossego. O sossego que é ilustrado no parar de tempo entre as árvores, meias perdidas e suspensas num mundo que não um nosso. Noutra realidade.
Às vezes pergunto-me se será um sonho. Se estou a sonhar que me encontro numa varanda, gelada, com um cigarro solitário nos dedos e um alguidar tapado com bacalhau a demolhar à minha direita. Tapado para que os pássaros não o piquem, na varanda porque serve de frigorífico por ora.
Mas não é um sonho. E esta é também a minha terra. Terra esta coberta por um manto branco, de onde parecem espetar pequenas ervas e ramos, secos e queimados pelo frio. Cujas florestas nos abracam e servem de vizinhas. Cujas árvores abatidas, nos lembram soldados caídos numa batalha há muito passada, conservados pelo frio.
Aqui tudo mexe, ninguém para. Mas a sensacão parece contrária. Que o branco que nos colora, também nos faz hibernar de certa forma. E estou certa, que se penetrasse o denso cinto deárvores, me sentiria só, como se não houvesse mais ninguém no mundo à minha excepcão.
Ainda assm nem tudo parece grisalho. A cor vive nas pessoas. Nas almas, no trabalho, nos sorrisos. Por exemplo, na forma fantástica como vivem os jogos olímpicos. Como se por momentos, não importasse mais nada que a defesa de um povo, do orgulho por terem sobevivido. É que eles, nós, somos também sobreviventes. Não só do frio do inverno, como também da ânsia de domínio de outros povos.
Somos calmos, sossegados. Mas não seremos dominados. Nem hoje, nem amanhã. Podemos abdicar de certa forma da nossa liberdade, desde que a contrapartida seja boa. Coisa de sobrevivente. Mas dominados? Nunca.
As casas cortam o branco, o castanho e o verde-musgo, já que são frequentemente coloridas por azuis, vermelhos e amarelos. Não que sejam cores vibrantes estas, mas quando a paisagem se assemelha muito, ali elas se iluminam, como oásis no deserto.
Aqui há quem acorde cedo, para verificar se nas redes, deixadas algures num lago gelado o suficiente para se atravessar de carro, se perdeu algum peixe entretanto. Nem tudo vem do supermercado. E para quem espera, sempre compensa. Comer peixe sai caro. Daí o predomínio das carnes, da cozinha internacional - espanhola e italiana - dos lacticínios!
Os legumes e fruta, são na sa maioria importados. O inverno dificulta o cultivo. Daí a autonomia financeira ser um must. O capital, financeiro ou strictu sensu, é essencial para evitar uma dieta à base de leite, cogumelos, pão, cereais, carne e bagas.
E eu, bem, eu sou estranha. Porque me arranjo. Porque ando de saltos-altos. Mas sobretudo porque falo muito e muito alto. Porque dou beijinhos em vez de apertar a mão. Porque tenho em mim um desassossego, próprio do povo latino. Aqui vivem um perpétuo poema de Ricardo Reis, misturando a proporcão certa de carpe diem, muto muito diluído pelo q.b., pelo pânico pelo exagero. É a tal calma, a tal paz.
Por isso, quicá, o meu avô não pára de me mandar ter calma. Parar um pouco.
O que talvez diga algo sobre os dois cabelos brancos que encontrei. Mas eu sempre disse que tinha um ser mais velho a coexistir em mim. Da mesma maneira que contrasto o lado homme e femme.
Vou dormir. Aqui já são duas e até o sol nascer, acordo muitas vezes. Umas vezes o sono inquieto. Outras a companhia de casa. Já é tarde.
Este post foi redigido inicialmente como um mail para o Colin. Mas achei que por estar longo e pesado, seria mais próprio para aqui. E não liguem à ausência de cedilhas ou outros erros. Aqui o teclado é um pouco diferente.
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