Perto e longe vejo o caos dos edifícios. A vida mundana. Que é dos outros mas já não é minha. Porque uma vida com música não é mundana. É como um renascer. Como se eu fosse uma fénix. Melhor: como se fosse cega e surda e subitamente me destapassem os olhos, os ouvidos e as cores, a alma das pessoas, se revelassem mais visíveis que antes.
E da melancolia passo à felicidade. Porque não há espaço para infelizes na música. A vida enche-se de amor, a Primavera é perpétua e bela, as flores desabrocham constantemente e nunca perecem. É isso a música. Mesmo a triste. Mesmo os lamentos maravilhosos de quem as trouxe ao mundo me enchem de felicidade. Porque sofrer é não ouvir. Sofrer é não poder sentir o bater das teclas, o deslize nas cordas ou o sopro na palheta.
E lembra-me o que é ser humano: tocar no nirvana e explorar algo tão mágico, fantástico e belo com os nossos sentidos.
É impossível, não libertar uma lágrima ocasional. Não de tristeza, ou sofrimento. Mas da forma como o som nos toca a alma. Nos abraça o coração e o desliza para fora, batendo ao som do ritmo, das notas e dos compassos.
Preciso de ar para sobreviver, é certo. Mas preciso de música para viver. Para sorrir, amar, dar um passo no caminhar da vida.
E estou grata. Tão grata por poder sentir, sentir ao som de algo mais ou menos maravilhoso. De ouvir. De fechar os olhos e conseguir imaginar toda uma centena de circunstâncias, de memórias, de sonhos, ao som de uma "banda sonora". Aquela que tem de inundar a minha vida e afogar o desalento das mágoas, da tristeza e dos obstáculos da vida.
Seria impossível para mim ser feliz sem música. Talvez porque nasci com música. Talvez porque cresci com música. Sobretudo porque ela me convidou a viver e conviver com ela. E quem me dera falar não com palavras, mas com música. Porque talvez, talvez, conseguisse tocar no âmago das pessoas com som e não com palavras, tão repletas de sabor, por vezes incompreensível, outras vezes aprazível e noutras ainda, amargoso.
E é algo que não posso ousar sequer aprender. Um conhecimento, um dom, para além da minha banalidade.
O dom de me tocar primeiro com o som e só depois com as mãos lânguidas e mornas. E como eu nunca fui tocada assim, senão pelo amor da minha mãe quando tocava para mim, sinto-me, quiçá, novamente, pequena e aconchegada. Amada. Cuidada. Aninhada.
Não é qualquer homem que, de facto, me deixa rendida, apaixonada, só usando um dos meus sentidos. E não é por ser instrumentista. É pela capacidade de reproduzir maravilhosamente algo tão belo. Que me deixa arrepiada.
E o sexo é fabuloso. Não. Não o carnal. Isso deixo para outra composição. Falo do envolvimento do som com o meu corpo.
Não é o piano, não é outra coisa qualquer. É a vontade de me dar tudo aquilo que poderia pedir. E mais. É dar-me vida. Regar-me e podar-me como se eu fosse um bonsai. Pequeno. Frágil. Sensível.
É isto que me faz gostar de ti. E gostar de me perder a escrever enquanto te ouço. Enquanto, involuntariamente, me enches de vida. Me enches de amor.
Sem comentários:
Enviar um comentário