O calor do teu corpo
E até me chega a sensação do teu beijo.
Na nuca, onde desviei o cabelo.
Mas não estás mesmo aqui.
Até estás, mas não estás mesmo.
Estás noutro lado e eu aqui
Sozinha, ainda que não verdadeiramente
Porque estás aqui. Embora não te apeteça.
E por não te apetecer a ti, também a mim não apetece.
Quero fugir. Vestir-me e fugir.
Quero que chegues e percebas que não estou aqui.
Que para estar só, prefiro está-lo de facto.
De dar por mim num sítio seguro.
Onde não tenha medo que entres,
A qualquer momento e me vejas chorar.
Não gosto que me vejas as lágrimas.
Que se apoderam de mim. A pressão.
Enquanto espero por ti e amaldiçoo Deus,
Porque não podia fazer nada simples.
Sobretudo porque me faz sentir só
E eu tenho muito medo de acabar sem ninguém.
Ninguém que me diga que sou importante,
O seu lar, o amor da sua vida, que me chame mãe
De não criar os meus filhos, de não poder mais andar
Sobre os saltos da vaidade, sentindo-me independente.
Independente dos outros, dependente de ti.
Haverá felicidade sem ti?
Não sei. Estavas aqui, mesmo sem estares.
É ainda pior quando não estás.
Agora foste fumar e espero.
Que chegues, que me abraces
Que faças amor comigo e me cures
Desta solidão, do medo que o tempo se acabe
Que isto se acabe, eu e tu.
Nós, juntos, felizes. Telepáticos.
Sintonizados um com o outro, tão apaixonados
Enamorados, tão certos que podemos criar uma casa.
Tu e eu. Uma casa. Um lar. Um ninho. Os nossos. O papá.
A mamã. O piano e as memórias de uma vida a dois.
Onde estás? Volta. Por favor. Não me faças sentir só, esquecida.
Abandonada.
Não outra vez.
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