domingo, 20 de julho de 2014

Não outra vez

Sinto o teu cheiro,
O calor do teu corpo
E até me chega a sensação do teu beijo.
Na nuca, onde desviei o cabelo. 
Mas não estás mesmo aqui. 

Até estás, mas não estás mesmo.
Estás noutro lado e eu aqui
Sozinha, ainda que não verdadeiramente
Porque estás aqui. Embora não te apeteça. 
E por não te apetecer a ti, também a mim não apetece. 

Quero fugir. Vestir-me e fugir. 
Quero que chegues e percebas que não estou aqui. 
Que para estar só, prefiro está-lo de facto.
De dar por mim num sítio seguro. 
Onde não tenha medo que entres,
A qualquer momento e me vejas chorar. 

Não gosto que me vejas as lágrimas. 
Que se apoderam de mim. A pressão. 
Enquanto espero por ti e amaldiçoo Deus,
Porque não podia fazer nada simples.
Sobretudo porque me faz sentir só
E eu tenho muito medo de acabar sem ninguém. 

Ninguém que me diga que sou importante,
O seu lar, o amor da sua vida, que me chame mãe
De não criar os meus filhos, de não poder mais andar
Sobre os saltos da vaidade, sentindo-me independente.
Independente dos outros, dependente de ti. 
Haverá felicidade sem ti?

Não sei. Estavas aqui, mesmo sem estares. 
É ainda pior quando não estás. 
Agora foste fumar e espero. 
Que chegues, que me abraces
Que faças amor comigo e me cures
Desta solidão, do medo que o tempo se acabe
Que isto se acabe, eu e tu.

Nós, juntos, felizes. Telepáticos.
Sintonizados um com o outro, tão apaixonados
Enamorados, tão certos que podemos criar uma casa. 
Tu e eu. Uma casa. Um lar. Um ninho. Os nossos. O papá. 
A mamã. O piano e as memórias de uma vida a dois. 
Onde estás? Volta. Por favor. Não me faças sentir só, esquecida. 
Abandonada. 

Não outra vez. 



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