"Há pessoas, neste mundo, que se recusam a ser infelizes. Que o são, mas fingem. Há pessoas realmente felizes, capazes de arredar do caminho o sofrimento e os reumáticos e de aproveitar o (pouco) bom que há no mau, ou de aceitar no âmago do seu ser todo o mal e com isso aceitar-se a si próprias e viver de cabeça erguida. Outras há que nem o vêm - ingénuas ou simplesmente estúpidas, crentes ou apenas cegas, não vem ao caso. Mas há as que sofrem, um sofrimento puro, sem razão, sem porquê, porque sim, porque a dor está lá, esta vida não é para fracos de espírito nem para os demasiado sensíveis. Porque tudo magoa, porque a melancolia é companheira de cama e a tristeza está a aquecer o café da manhã, e pôr um pé fora de casa é pôr também a cabeça no cepo. Mas não sair é estar só, e embora “antes só que mal acompanhado”, a companhia que trazemos no bolso já é má para começar, e a última pessoa com quem queremos estar somos nós próprios. Por isso um “olá” é tão bom de se ouvir, embora ao mesmo tempo nos doa porque sabemos que haverá inevitavelmente um “adeus”, todas as palavras têm dois bicos e ninguém tira positiva a Português hoje em dia, por isso mais vale estar quieto, deixem-me cá no meu canto onde eu também não quero estar. E essas, de todas estas aves raras, serão talvez as mais difíceis de encontrar. Mas encontram-se."
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