terça-feira, 10 de março de 2015

A história da lata esmagada

- Não achas maravilhoso termo-nos encontrado?
- "Dá-me 20 anos e depois digo-te."

Já fizemos boas memórias. Uma ou outra foram menos boas. Mas já fizemos muito boas memórias. Viagens juntos. Noites juntos. Pequenas coisas do dia a dia, tornadas especiais. Só isto deveria chegar para o balanço ser positivo. Mas deveria sê-lo, sobretudo por eu saber que sou a única, a única, que esteve sempre lá para ele nos maus momentos do último ano. Às cinco da manhã, quando não lhe souberam dizer quando receberia o seu salário, quando o mestrado pareceu cair por terra, quando o orientador ameaçou derrubar todo o trabalho feito. Eu estive lá. Podia ter estado só nos bons. Mas estive também nos maus. 

Vinte anos? Que resposta mais cruel. Senti-me como uma lata de coca-cola esmagada. Ou pelo menos amolgada. 

Tão cruel como todo o olhar para todo o rabo mais jeitoso. E se não é o rabo, são as mamas. E eu, que bem gostaria de me vingar e comentar que o rapaz que passa é lindíssimo, não o faço. Porque nem sequer aprecio. É como se não conseguisse ver mais do que ele. Aparentemente a estúpida sou eu. 
Estúpida quando ouço o comentário sobre a rapariga de calções curtos de ganga e me sinto triste. Eu que não uso calções porque neste momento não tenho corpo para isso. Também porque estar sempre ralada com as merdas dele, me dão mais apetite. A culpa não é dele, é claro. É minha. 
É minha porque se eu me parecesse mais com a miúda de calções ou com a Sara, provavelmente ele não olharia para mais nenhuma. Eu encher-lhe-ia os olhos. Agora encho de uma forma negativa. Estou larga, tapo as paisagens. 

Já devia sabê-lo. Eu sou a mais cheiinha de todas as ex namoradas. Não admira que os olhos dele procurem o que ele sempre procurou. 

E a desculpa da biologia não serve. Bem sei que o Thèo era autista mas lembro-me bem de ver miúdas a atirarem-se a ele. Muito melhores em termos físicos que eu. Ele nem hesitava. Só me via a mim. Tal como eu só vejo o meu pianista. Só a ele. 

Terei de ser mais como uma Irina em termos de corpo para ter a total atenção dele? Será que a suposta atracção física na nossa relação é só reflexo dele gostar de mim? E se a Sara (uma das colegas perfeitinhas dele) decidisse atirar-se a ele, conseguiria ele dizer que não? 

Não sei. Ele também não. Mas sei sim, que gostava muito de deixar de me sentir menos que uma miúda com um par de calções rasgados ou outra com a silhueta perfeita. Simplesmente porque sei que no final do dia, sou muito mais. Sobretudo, mais elegante. Mais mulher, menos miúda. E quando adicionamos personalidade e cultura à equação, mais segura me sinto.
 Portanto, porque é que não sou eu o centro das atenções dele? 

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