domingo, 1 de maio de 2016

A ilha

Os meus avós foram casados durante quase 60 anos e vicissitudes à parte, uma tarde a minha avó disse-me que não obstante passarmos uma vida inteira ao lado de alguém, nunca a conheceríamos por completo. Porque também nós temos uma ilha que ninguém conhece, nem nós queremos que conheçam. 

Ontem uma boa amiga perguntou-me como é que ultrapassei certos desafios na minha relação. Não lhe disse que não ultrapassei. Ainda. Nem sei se alguma vez o farei. 
Disse-lhe que nenhuma relação é um conto de fadas. Que já deixara de acreditar nisso. E que o mais importante é as partes falarem do que as aflige, de colocarem os pontos nos I's. Porque por vezes a coisa parece ser de certa forma e não é. (Estaremos assim tão certos que o que experienciamos e sentimos é real?)

Há coisas que não são passíveis de perdão, porque não são ofensas. Não podemos desculpar algo sem culpa. E para alguém de Direito esta questão da culpabilidade diz muito e faz uma diferença descomunal. 

Estou cheia de mágoa. Tenho pesadelos que ainda não consegui ultrapassar e medos e inseguranças que me consomem. 
O estremecer cada vez que ele pega no telemóvel. Não é racional. É emocional. É um pecado meu e só meu que, em toda a justiça, não posso imputar a mais ninguém. 
Os meus valores e princípios, as lentes com que vejo e sinto o mundo, são minhas e só minhas. Posso esperar que os outros vejam o mesmo que eu, mas não posso obrigá-las a isso. Não posso, nem devo, sob risco do mundo se tornar mundano e um reflexo de mim própria. 

Não quer isto dizer que não sofra. Em silêncio, porque as palavras não têm o mesmo valor para o próximo como têm para mim, porque sentimos de forma diferente, porque somos diferentes. 

Resta-me viver assim e esperar que a tempestade passe. A minha, a dele, a dos outros quando são os outros. 
Que a minha força cresça para que coisas assim deixem de importar. 

Só somos donos de nós próprios e só isso já é uma grande responsabilidade. É o dever de sermos melhores, mais fortes, mais confiantes. Se formos bons para nós próprios, pouco importa se os outros são bons para nós porque, como diz o meu pai, de uma forma um pouco cruel, as pessoas são recicláveis. Vêm e vão. E nós podemos até tentar que assim não seja. Mas se formos grandes por dentro, percebemos que isso não depende de nós. E assim é mais fácil viver, com a nossa própria companhia, na qual o outro não é uma necessidade ou uma dependência. É um prazer. 

Não é tão melhor viver em prazer que em obrigação? Não é um alívio pensar que não estamos sós por pena mas sim porque somos tão grandes que somos desejados? 

Lá está, a minha avó sempre me disse, que mais vale ser desejado que ser importunado.  

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