terça-feira, 23 de agosto de 2016

Ter tudo

Estou a ler "A ponte para a eternidade" do Richard Bach, o que coincidiu curiosamente com o facto de me ter separado do meu pianista. E eu uso a questão da coincidência porque o livro é sobre a busca da alma gémea, do que queremos para nós e do quão fundamentais os nossos valores são e como isso pode afectar a nossa "visão" na procura da alma gémea.

Toda esta questão da alma gémea é altamente discutível. Aliás, amigos meus fartam-se de gozar comigo porque não acreditam nada "nessas tretas".

Existir uma alma gémea ou não, convém no mínimo que a pessoa com quem estamos cumpra algum tipo de requisito para que: a) haja atracção; b) exista entendimento entre as partes; c) tenha algum interesse em comum connosco.

Aos 18 anos eu dizia muito certa de mim própria que só namoraria homens mais velhos, mais altos e não fumadores. Hoje fumo, já dormi com homens bastante mais baixos do que eu. Só não matei a regra dos mais jovens mas - admito - já olhei para alguns.

O que é que isto tem a ver com o livro? Bem, no livro a nossa personagem, que é nem mais nem menos que o próprio autor, procura uma mulher que eventualmente tem de cumprir mais requisitos do que ele próprio cumpre, acabando por baixar um pouco os braços e desistir dessa ideia. Acaba por deixar entrar muitas mulheres na sua vida, nunca casando. Até um dia encontrar alguém que desarma a muralha de expectativas (uma palavra muito melhor que requisitos) que ele tinha da sua alma gémea.

Eu achava que o meu pianista era um cavaleiro num cavalo branco. Gostamos de música, história, literatura, motas... Divertimo-nos muito mas... e o respeito? E a honestidade acima de tudo? O olhar de quem está completamente apaixonado por nós - que havia no início? O sentimento de excitação pela outra pessoa só por estar ao seu lado na cama?

O que eu quero dizer é: do que queremos nós abdicar, para encontrarmos alguém que "encaixe" o máximo possível connosco?

Agora, levantam-se novas questões no que procuro - será que consigo viver com alguém que é louco por mim, mas com o qual não consigo ter temas de conversa aprofundados sobre filosofia, história, política ou música? É possível encontrar alguém que seja culto, trabalhador, tenha uma aparência cuidada e atractiva, que também seja divertido, honesto e me ame até ao fim dos meus dias?
Será que me vou contentar com o que aparecer porque todas as minhas tentativas têm falhado e estou farta de sofrer? Será que vou ser infeliz até ao fim dos meus dias porque a minha alma gémea está por aí e eu desisti de a procurar? Ou devo procurar até a encontrar, mesmo que isso signifique muitos muitos anos de solidão ou de companhia sem intimidade, superficial?

Não sei. Não sei mesmo.

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