A crise apanhou a minha família. Não estamos na miséria, graças a Deus, mas a distância entre o conforto de outrora e as preocupações de hoje, é enorme. E casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
O meu pai sempre foi uma pessoa difícil e a nossa relação não é a melhor. Em parte porque ele nunca esteve verdadeiramente presente quando mais precisei. Ainda hoje, pedir-lhe boleia é estúpido: ele é incapaz de se levantar da cama, descer até à garagem e apanhar-me. Mesmo que esteja a chover a potes.
Ultimamente está pior. E não é por termos uma convivência mais intensa - já que passo metade da semana em casa dos pais do meu namorado ou a trabalhar - é por não estar bem. Consigo próprio. E como de costume, sou eu o saco de boxe. Tudo serve de desculpa. Qualquer coisa que eu diga é provocação. E o que mais custa, é o tique permanentemente dele de arrastar pessoas que amo para a discussão. Não foi o J. Mas foram os pais dele. Quando a pancada é contra mim, eu aguento. Mas não tolero que impliquem pessoas que me desejam mais do que o meu próprio pai.
Ele diz que não tem dinheiro. Acha que eu gasto demasiado. Mas vai num cruzeiro para o Pacífico. Porque os amigos o convenceram. E depois anda preocupado porque faz 10€ num dia.
No fim, sou eu que levo com a pancada. Sou eu que não tenho dinheiro para ir comer um hambúrguer sequer ao macdonalds. Sou eu que fico com vontade de acabar a minha vida porque só quero PAZ.
Custa assim tanto ter paz?
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