quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Carta ao Thèo

Caro Thèo,

Estou a ouvir Kavinsky. O Nightcall dele, versão original. 
Isto estava-me colado à cabeça com o post-it que diz "eu já ouvi isto num filme". Acontece a toda a hora, infelizmente.

E não estava errada. Foi no Drive, aquele filme com o Ryan Gosling muito 80's. Até tenho o poster que tu mandaste vir para mim, enrolado por cima do roupeiro. 
Não estás aqui, não vais ler isto. Não me queres ouvir, nem ler. Mas eu preciso de falar contigo. E como não consigo, talvez isto ajude. 

O João não percebe quando falo de ti. Porque é que falo tanto de ti. 

Tenho raiva. Raiva de não poder ter gritado. De não te ter batido por tudo o que me fizeste. Raiva porque me deixei ser magoada, ao embeiçar-me pela tua cara de anjo. Pelo teu ar inocente e endiabrado ao mesmo tempo. És um manipulador e sabes disso. E eu caí na asneira de não acordar para a vida e deixar que jogasses futebol comigo. E isso está-me atravessado, porra! 

Não te perdoo, no entanto. Tu gostaste de mim, de uma certa maneira só tua. Doentia. Mas fizeste-me mal. 
Quando me ralhavas por eu me arranjar, achando que ficarias feliz por ter uma mulher cuidada e bela ao teu lado. 
Quando ficavas ofendido por te pedir que criasses condições de vida para termos uma casa e uma família. 
Quando te implorava para conheceres os meus amigos e tu responderes que não te interessavam para nada.
 Quando me censuravas por fumar e beber, mas achares piada aos teus amigos - tão melhores que os meus - irem para uma casa de banhos snifar linhas de coca. 
Odeio-te por aquela vez que esperei por ti uma hora para bebermos um copo e passados 45 min. contigo e com os teus amigos, estavas a por-me num taxi porque ias voltar com eles para casa. Odeio-te por não me falares.
 Odeio-te por teres entrado no meu iCloud. 
Odeio-te por não teres aceitado um não e me teres feito sentir violada. 
Por aquela vez em que te quis oferecer um presente de 250€ e me deixaste pendurada num quarto num hotel de 5* sozinha. 
Por estares sempre a pôr defeitos nas casas da minha família. 
Por odiares a minha família. 
Pelas birras, pelos amuos.
Por achares que um iPad, cinco jantares e cinco perfumes compensam 5 anos de bullying. 

Ainda assim gostava de saber de ti. Porque me preocupo. Está na minha natureza. E porque quero ficar por cima. Quero que percebas de uma vez por toda que agiste mal comigo. 

E agora me despeço. Tenho de ir telefonar a um Homem em tudo melhor, que me quis rainha hoje quer bem e quer muito e que faz tudo por tudo para me fazer feliz, todos os dias, a qualquer hora. 

Até um dia,

J.

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