Mas não é. Eu tenho um sonho ("I have a dream") e apesar de não estar na Suécia, estou mesmo ao lado.
No meu sonho, uma mulher loura, de olho azul, matulona, caminha ao meu lado. Ela é tão grande, em tamanho e em força que eu me sinto pequenina.
Mas não deixa de ser um sonho, e como qualquer sonho, tem um fim. Na realidade, estou num apartamento sozinha e essa louraça, a minha mãe, está pequenina, curvada sobre si própria, como um bebé em gestação. Atarracada, sem força para endireitar o pescoço e me olhar nos olhos. Demasiado cansada para conseguir acabar frases e conversar comigo.
Estou sozinha, dois anos depois. Deitada ao lado de um piano, cuja proprietária não lhe põe as mãos há 16 ou 18 anos.
É a Esclerose Múltipla, são os medicamentos, dizem-me. Não sei bem quem ou o quê é o culpado. Mas gostava mais do meu sonho. De uma mãe presente e com a mesma força por fora, como a que tem por dentro.
Mata-me esta vida. Em que vejo as pessoas que amo a ficarem pequenas pequeninas, definhadas e dependentes. E eu sei que todos nós morremos eventualmente, mas não deveria ter de ser assim. E sobretudo, não deveria ter de ser a minha visão para cada lado para onde olho.
Cheguei há cinco horas, mas já estou outra vez com aquela sensação de quem quer partir mas sem nunca o dever fazer.
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