"Como deves imaginar, por mais que eu não desse razão ao meu
pai, porque afinal de contas, não aceitava que ele me atirasse as pedras ao
telhado, eu arrependi-me. Arrependi-me de tudo. De me ter orientado ao sabor do
meu coração. De nunca ter sido mais racional que emocional. Eu sei que a
história seria diferente se o meu coração me tivesse guiado para um homem rico
e bom. Mas não teria. Acredita quando te digo, que quando só o coração manda, todo
o corpo sofre. Todo o corpo dói.
Por esta altura eu estava com 26 anos, quase nos 27, com um
trabalho que adorava mas que pagava miseravelmente mal, prestes a ficar sem
tecto, sem dinheiro, a pesar 80kg e quase casada com um homem que mal fazia
amor comigo. Como não podia desistir da vida, mesmo que pouco houvesse para se
desistir, amaldiçoei-me. Arrependi-me de tudo. Sofri pela minha ingenuidade
tola. E se naquela manhã, com o sol a entrar-me no gabinete, tivesse uma
vergasta, ter-me-ia vergastado. Porque merecia. Porque tive todas as hipóteses
de ter uma carreira, de não deixar que a minha família abusasse da minha boa
vontade, de me guardar até um homem que verdadeiramente me amasse, de já ter
uma casa minha, de não ter passado pelos abusos e a violação do Luís, as
traições do Bernardo e de todos os corpos que de mim só quiseram carne.
Eu podia ter sido brilhante, como uma estrela. Eu era
especial à minha maneira. Com profissionalismo, perfeccionismo e um coração
enorme. Eu podia ter sido grande, mas acabei por ser medíocre. E tive-me a mim
mesma para me relembrar todos os dias que era uma merda. Que transformei a
minha vida em merda.
Portanto perdoa-me. Perdoa-me por me ter agarrado a ti com
tanto afinco. Por ter feito de ti a minha grande criação, pelas sestas que não
te deixei dormir para que pudesses tocar para mim e me pudesses dar, com as
cordas do teu violoncelo, o sabor da vida que sempre desejei ter e nunca tive."
Sem comentários:
Enviar um comentário