quarta-feira, 8 de março de 2017

"Como deves imaginar, por mais que eu não desse razão ao meu pai, porque afinal de contas, não aceitava que ele me atirasse as pedras ao telhado, eu arrependi-me. Arrependi-me de tudo. De me ter orientado ao sabor do meu coração. De nunca ter sido mais racional que emocional. Eu sei que a história seria diferente se o meu coração me tivesse guiado para um homem rico e bom. Mas não teria. Acredita quando te digo, que quando só o coração manda, todo o corpo sofre. Todo o corpo dói. 

Por esta altura eu estava com 26 anos, quase nos 27, com um trabalho que adorava mas que pagava miseravelmente mal, prestes a ficar sem tecto, sem dinheiro, a pesar 80kg e quase casada com um homem que mal fazia amor comigo. Como não podia desistir da vida, mesmo que pouco houvesse para se desistir, amaldiçoei-me. Arrependi-me de tudo. Sofri pela minha ingenuidade tola. E se naquela manhã, com o sol a entrar-me no gabinete, tivesse uma vergasta, ter-me-ia vergastado. Porque merecia. Porque tive todas as hipóteses de ter uma carreira, de não deixar que a minha família abusasse da minha boa vontade, de me guardar até um homem que verdadeiramente me amasse, de já ter uma casa minha, de não ter passado pelos abusos e a violação do Luís, as traições do Bernardo e de todos os corpos que de mim só quiseram carne.

Eu podia ter sido brilhante, como uma estrela. Eu era especial à minha maneira. Com profissionalismo, perfeccionismo e um coração enorme. Eu podia ter sido grande, mas acabei por ser medíocre. E tive-me a mim mesma para me relembrar todos os dias que era uma merda. Que transformei a minha vida em merda.

Portanto perdoa-me. Perdoa-me por me ter agarrado a ti com tanto afinco. Por ter feito de ti a minha grande criação, pelas sestas que não te deixei dormir para que pudesses tocar para mim e me pudesses dar, com as cordas do teu violoncelo, o sabor da vida que sempre desejei ter e nunca tive."

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